que me elevas ao paraíso
invulgares e as raridades
dos ciclos que comandam
as espécies em via de extinção !
que me elevas ao paraíso
invulgares e as raridades
dos ciclos que comandam
as espécies em via de extinção !
quando sorris não importa
onde o meu coração bate
mas encontro a paz e levito
na simbiose do mundo
que se enraíza no teu sorriso
e eu renasço para o mundo
quando te abraço e tu possas
a tua cabeça no meu peito
sinto - me leve e consigo
flutuar no perfume do teu corpo
como se tivessem criado a mais pura
flor que mais ninguém possui
a pele a molhar - me
a saliva è o infinito que alcanço
na leve bruma da manhã que nasce
no teu olhar
ao sabor do vento
e não quero chegar
ao fim do destino
quero ampliar os acordes
desta melodia em que tu
me envolves num doce
caminho de búzios
a minha palidez sinto - o
a apertar - me o coração
a percorrê - lo
a penetra - lo
e fico quieto enquanto
me envolves nas batidas
controladas por ti
de um mundo melhor
como se fosses o sol
na pele fina e o calor
surgisse no espaço
breve mas intenso
onde não existe lugar
para esgrimas
não preciso de um para
sempre preciso de um
infinito no momento
a flor da vida a abrir - se
no teu sorriso como se na criação
do mundo ela existisse primeiro
molde para a natureza humana
capa para protecção das espécies raras
luz para os caminhos escuros
que me devolvam as palavras
num sorriso num olhar de lua cheia
e no silencio da neblina matinal
julgo que a paz è isso devolverem - me
as palavras num silêncio
è uma necessidade de elevar
as palavras para que o vento
as leve ao seu destinatário
para que as palavras não criem
redemoinhos no meu cérebro
e me embrulhem o estômago
sem precisar de ver a sua cor
gosto de tocar naquele esperança
que me alimenta o verbo e me
faz alcançar a lua
tão fortemente tão perto
da palma da mão
è olhar bem fundo e sentir
um sentimento profundo
dentro do coração è subir
ao monte e junto ao céu
beijar o horizonte abraçar
a paisagem e ver a luz intensa
do dia a escurecer
de possuir demónios
na veia enroscada em forma
de torpedo no riacho da tua cela
olhos de sereia luzindo
ao amado sol a mais próspera
boleia rebolo no teu corpo
na tua doce pele macia
e na tua humildade saboreia - se
o clima ameno
aumentando o registo da infelicidade
começa de forma literária e acaba
transformada em realidade
o que transmito no olhar
ver as pétalas que murcham
no meu coração sofrem de angùstia
no meu entender respiram espasmos
de ilusão com medo de morrer !
abrindo fogo com a arma
mais pesada
à procura è uma necessidade
da tal onda viciada
esqueleto cravado em terra da morte esquecida
no presente desfolha a necessidade que berra
là para os lados do Oriente
não ir abaixo o que não è
realidade que não encaixa
a minha forma de estar nem
sempre è igual a minha maneira
de ser !
saem palavras perdidas
no encher das marés
o vazio da lua cheia
debruça - se nos meus versos
nos meus braços correm - me
nas veias linhas em formas de
traços seguro as pernas de pé para
tentar não ir abaixo
um sonho esculpido de horas
azuis de flores de esquecimento
onde os nossos corpos queimados
afloram o azul desdenhado
os interditos soltam - se no mar de sargaços
entre o silêncio e o grito
( ... )
Tudo è ausência
poeira de argila
fumo
o traço de uma infância inacabada ...
chovia e a criança
orava ... nas vagas
do tempo os vestígios
do nada encontras - te a Laica
ele se chama Laica
lembras - te ?
foi em Abril
num principio de Primavera
o vento tinha raptado as rosas
do tempo e tu là tão alta e eu
tão longe perto de ti no eco
da tua voz
o frio morto em cinzas
a ocultou a mão do vento
pode erguê - la ainda
dà sopro a aragem ou desgraça
ou ânsia com que a chama remoça
e outra vez conquiste a distância
do mar o outro mas que seja nossa
com as tuas ovelhas
que felicidade è essa
que pareces ter a tua
ou a minha ?
a paz que sinto quando te vejo
pertence - me ou pertence - te ?
não nem a ti nem a mim pastor
pertence sò a felicidade e a paz
nem tu tens porque não sabes que a tens ?
nem eu tenho porque sei que a tenho
è ela sò que caí como o sol que bate
nas costas e te aquece e tu pensas
noutra coisa indiferentemente e me bate na cara
e me ofusca e eu sò penso no sol
mas o sentido de morrer
não me move
lembro - me que morrer
não deve ter sentido
isto de viver e morrer
são classificações
como as das plantas
que folhas ou que flores
têm uma classificação ?
que vida tem a vida ou que morte a morte ?
tudo são termos onde se define
e eu sei
porque ela não sabe que tem perfume
e eu sei
porque ela não tem consciência de mim
e eu tenho consciência dela ?
mas o que tem uma coisa com outra
para que seja superior ou inferior a ela ?
sim tenho consciência da planta e ela não tem de mim
mas se a forma da consciência è ter consciência que há nisso ?
a planta se falasse podia dizer - me e o teu perfume ?
podia dizer - me tu tens consciência porque ter consciência
è uma qualidade humana e sò não tenho porque sou flor
senão seria homem tenho perfume e tu não tens porque sou flor ...
mas por que me comparo com uma flor se eu sou eu e a flor è a flor ?
ah não comparemos coisa nenhuma olhemos deixemos análises
metáforas simule comparar uma coisa com outra è esquecer essa coisa
nenhuma coisa lembra a outra se repararmos para ela
cada coisa sò lembra o que ela è e sò o que ela è o que nada mais è
separa - a de todas as outras o facto que ela è ela
cada coisa sò lembra o que è tudo è nada sem outra coisa que não è
sem um quarto para o amor
amantes são sempre extravagantes
e ao frio tambèm faz calor
pobres amantes escorraçados
dum tempo sem amor nenhum
coitados tão engalfinhados
que sendo dois parecem um de pé imóveis transportados
como uma estátua erguida num jardim votado ao abandono
de amor juncado e de Outono
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis
vai ter olho onde ninguém os veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não sò nas paredes
mas tambèm no chão no tecto
no murmúrio dos esgotos
e talvez atè ( cautela ! )
ouvidos nos teus ouvidos
o medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões continuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências vàrias
congressos muitos
óptimos empregos
poemas originais
e poemas como estes
projectos altamente porcos
heróis
( o medo vai ter heróis ! )
costureiras reais e irreais
operários
( assim assim )
escriturários
( muitos )
intelectuais
( o que sabe )
a tua voz talvez
talvez a minha
com certeza a deles
vai ter capitais
países
suspeitas como toda gente
muitos amigos
beijos namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados
ah o medo vai ter tudo
tudo
( penso no que o medo vai ter e tenho medo que è justamente o que o medo quer )
o medo vai ter tudo
quase tudo
e quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos
sim
a ratos
a imaginar ?
o meu peito contra o teu
cortando o mar cortando o ar
num leito há todo um espaço
para amar !
na nossa carne estamos sem destino
sem pudor e trocamos somos um ? somos dois ?
espírito e calor !
o amor è o amor e depois ?
como uma tampa azul cobrindo o Tejo
querela de aves pios escarecèu
ainda palpitante voa um beijo
donde terá vindo ! ( não è meu ... )
de algum quarto perdido no desejo ?
de algum jovem amor que recebeu mandato de captura
ou de despejo ?
è uma ave estranha colorida vai batendo como a própria
vida um coração vermelho pelo ar e è a força sem fim
de duas bocas que se juntam loucas !
de inveja as gaivotas a gritar ...
palavras de amor de esperança
de imenso amor de esperança louca
palavras nuas que beijas quando a noite
perde o rosto
palavras que recusam
aos muros do teu desgosto
de repente coloridas
entre palavras sem cor
esperadas inesperadas
como a poesia ou o amor
o nome de quem se ama letra a letra revelado
no mármore distraído
no papel abandonado
palavras que nos transportam
aonde a noite è mais forte
ao silêncio dos amantes
abraçados contra a morte
noticias do meu pais
o vento cala a desgraça
o vento nada me diz
pergunto aos rios que lavam
tanto sonho à flor das águas
e os rios não sossegam
lavam sonhos deixam mágoas
ai rios do meu país o vento cala
a desgraça o vento nada me diz
pergunto aos rios que lavam tanto sonho à flor das águas
e os rios não sossegam lavam sonhos deixam mágoas
ai rios do meu país minha pátria a flor das águas
para onde vais ? ninguém diz se o verde trevo desfolhas
pede noticias e diz ao trevo de quatro folhas que morro
por meu país
pergunto a gente que passa porque vai de olhos no chão
silêncio è tudo o que tem quem vive na servidão
vi florir os verdes ramos direitos e ao céu voltados e quem
gosta de ter amos vi sempre os ombros curvados e o vento
não me diz nada de novo vi minha pátria pregada nos braços
em cruz do povo vi meu poema na margem dos rios que vão
pró mar com quem ama a viagem mas tem de ficar vi navios a partir
Portugal a flor das águas vi minha Trova florir verdes folhas màgoadas
há quem te queira ignorada e fale pàtria em teu nome vi - te crucificada
há sempre quem semeie canções no vento que passa mesmo na noite mais triste
em tempos de servidão há sempre quem resiste há sempre alguém que diz não
por amor ao teu corpo
fui além e vi a rosa em todo
o ser fui anjo e bicho e todos
e ninguém como Bernard de Ventadur
amei uma princesa ausente em Tripoli
amada minha onde fui escravo e rei
e vi que longe de ti estava todo em ti
Beatriz e Laura e sò tu rainha e prostituta
no teu corpo nu o mar de Itália a Líbia
o belvedere e quanto mais te perco
mais te encontro morrendo e renascendo
e sempre em ti me encontrar e me perder
inauguramos a palavra amigo
amigo è um sorriso de boca em boca
um olhar bem limpo uma casa mesmo
modesta que se oferece um coração pronto
a pulsar na nossa mão !
amigos recordam - se
você ai
escrupulosos detritos !
amigo è o contrário de inimigo !
amigo è erro corrigido
não o erro perseguido explorado
è a verdade partilhada praticada
amigo è a solidão derrotada !
amigo è uma grande tarefa
um trabalho sem fim
um espaço útil um tempo fértil
amigo ai ser è já uma grande festa !
e muito a tempo !
o trivial se não fui eu que veio no jornal
foi uma tosse a menos na cidade ...
o caminho do verme uma beldade
não dirias assim ?
vai ser coberta pela mesma cal que tapa
a mais intensa fealdade
um crecitar de novo corvo fica bem
neste anuncio de morte a alguém
que não vê na alhei sorte a própria sorte
mas por que não dizer com maior nojo
que um menino saio do imenso bojo de sua mãe para esperar a morte ?
ai afinal o tempo passa rapaz !
um dente que estava são e agora não
um cabelo que ainda ontem era preto
dentro do peito um outro sempre mais velho
coração e na cara uma ruga que não espera
... que não espera ... no andar de uma uma nova criança
vai bater no teu crânio os pequenos pés mas deixa là rapaz
tem esperança este ano talvez venhas a ser o que não ès
talvez seja de enredo fácil presa eterno marido amante
de um sò dia calorfila ficam os teus dentes
que è uma beleza !
mas não te rias rapaz que o ano sò agora principia
talvez lances de amor um foguetão a algum coração
milhões de nos dor ou desesperado te resolvas por um mero
tiro na cabeça mas de alcance maior ...
grande asneira rapaz grande asneira seria errar na vida e não errar na pontaria
de viès esvaiado boi no guincho
o outro vermelho que te molha
sangue serradura ou na calçada
que mais faz se è de homem ou de boi ?
o sangue è sempre uma papoila errada cerceada
do coração que foi
groselha na esplanada bebe a velha
e um cartaz na parede nos convida a dar o sangue
franzo a sobrancelha
dizem que sangue è vida mas que vida ?
que fazemos Lisboa aqui os dois na terra
onde nasceste e eu nasci ?
as nuvens dentro da terra
sem fim que limitava as mãos
e as abria para as outras mãos
dentro de um olhar batem as fornalhas aos ventos
um cálice de vidro com o licor de fermentação caseira
um prato com avelã e nozes e folhas de medronho
nas margens as portadas corridas ganham um halo
de candeeiros de rua que se difunde na florescência
de televisor na palidez rubra das pequenas luzes
do radio a última claridade do dia mistura - se à primeira da noite
este vento auto estrada onde rebenta a chuva não me vai forçar o coração
nem estas sebes ladeadas de cimento suspenderão o voo do que sou atè ao que
não ès mas será a caricia que no cinto treme o calor do pescoço descoberto
os vimes da cadeira donde te levantas quando estou quase para me sentar
entre veios de relva desigual valadas por cuidar obrigam maquinas de desolação
formações de patos atravessam o vidro polido do postigo sobre a manta castanha
que prende os joelhos no silêncio de persianas já corridas um globo de lona ilumina
o livro na pequena mesa um arame de flores pendurado numa trave e o armário com
objectos de estranho meditação a vida acumulou - se em roldanas ao redor de tudo
um fume que sobe durante a noite sobre os mapas enrolados na parede despida há tantos
nos esquecemos de desdobrar de por eles chegarmos aos confins do nosso mundo e já estamos a
desaparecer
defendo - me da morte quando
dou ao seu desejo violento e lhe
devoro o corpo
lentamente mesa dos meus sonhos
no meu corpo vivem todas as formas
e começam todas as vidas
ao lado do homem vou crescendo
e defendo - me da morte povoando
de novos sonhos a vida
vigora o mais rigoroso amor a luz
ombros puros e a sombra de uma angùstia
já purificada não tu não podias ficar presa
comigo à roda que apodrecemos a esta
pata ensanguentada que vacila quase medida
e avança mugindo pelo túnel de uma velha dor
não podias ficar nesta cadeira onde passo o dia
burocrático o dia de miséria que sobe às mãos
aos sorrisos ao amor mal soletrado à estupidez
ao desespero sem boca ao medo perfilado
à água sonâmbula a vírgula maníaca do meu medo
funcionária de viver
não podia ficar comigo
em trânsito mortal atè ao dia
sórdido
canino
policial
atè ao dia que não vem da promessa
puríssima da madrugada mas da miséria de uma noite
gerada por um dia igual
não podias ficar presa comigo à pequena dor que cada um de nòs
traz docemente pela mão a esta dor portuguesa tão mansa quase vegetal
mas tu não mereces esta cidade não mereces esta rosa de naùsea em que giramos
atè à idiota esta pequena morte e o seu minucioso e porco ritual esta nossa razão
absurda de ser
não tu ès da cidade aventureiro da cidade onde vives por um fio de puro acaso onde morres
ou vives de asfixia mas às mãos de uma aventura de um comércio puro sem moeda falsa
do bem e do mal nesta curva tão terna e lancinante que vai ser que já è o teu desaparecimento
digo - te adeus e como um adolescente tropeço de ternura por ti
vòs que trabalhais sò duas horas
a ver a trabalhar a cibernética
que não deixai o atòmo a desoras
na gandaria pois tendes uma ética
que do amor sabeis o ponto e a vírgula
e vos engalfinhais livres de medo sem
preçários calendários pílula jaculatórias
fora tarde ou cedo computai a nossa falha
sem perfurar demais vossa memória
que nòs fomos para aqui uma gentalha
a fazer passamos com a história
que fomos ( fatal necessidade ! )
quadrùmanos da vossa necessidade !
mas falo com um desígnio
è um mal que não è mal
è lutar contra o bonito
vai -me a essas rimas
que tão bem desfecham
e que são pão de lò dos tolos
e torce - lhes o pescoço tal como
o outro pedia se fizesse a eloquência
e se houver uma vossa excelência que grite
não è poesia !
diz - lhe que não que não è que è topada
lixa três serração vidro moído papel
que se rasga ou pedra que rola na pedra
mas tambèm da rima « em cheio »
poderás tirar partido que a regra è não haver regra
a não ser a de cada um com a sua rima não fazer bom
e bonito mas fazer bem e expressivo ...
linda vista para o mar
Minho verde Algarve
de cal jerico raspando
o estilhaço da terra
surdo e miúdo
moinho a braços com um vento
testudo mas embolado e afinal amigo
se fosses sò o sal o sol o sul
o latino pardal
o manso boi coloquial
a renunciante sardinha
a descarada varina
ò plumitivo ladrilhado de lindos objectivos
a muda queixa amendoada dunas olhos pestanejados
se fosse sò a carregado esteios de estilos
o furunguento cão asmático das praias
o galo engaiolado a grila no lábio
o calendário na parede
o emblema na lapela
ò Portugal se fosses sò três sílabas de plastifico
que era mais barato !
doceiras de Amarante
barristas de Barcelos
rendeiros de Viana
toureiros de Golegã
não há babo de anjo
que seja meu derriço
galo que canta a cores na minha prateleira
alvura arrendada para o meu devaneio
bandarilha que possa enfeitar - me o cachaço
Portugal questão que eu tenho comigo mesmo
mesmo o golpe atè ao osso fome sem entretém
perdigueiro marado e sem narizes sem perdizes
rocem engraxado feira cabisbaixa meu remorso
meu remorso de todos nòs
com a luz com os remorsos saem
da verde floresta como um punhado
de flores e abrindo as asas formosas
as asas aurifulgentes feitas de opalas
ardentes com coloridos de rosas
os beija - flores em bando boémios
enfeitiçados vão como beijos a voar
por sobre os vigentes prados sobem
às altas colinas descem aos vales formosos
e espraiam - se após ruidosos pela extensão
das campinas depois sussurrando a fluxo dos cactos
ensanguentados bailam nos prismas da luz
do solto pólen dourados
ah ! como a orquídea estremece ao ver que um deles
mais vivo atè ser gérmen lascivo mergulha internasse
desce e não haver uma rosa de tantas açucenas
uma violeta piedosa que quando a morte sem pena
um destes seres fulmina abre - se em fervido eleio
como a alma de uma menina para guarda - lo no seio !
que me elevas ao paraíso invulgares e as raridades dos ciclos que comandam as espécies em via de extinção !